Gol! Ou não? Como a tecnologia – e não apenas o VAR – está mudando o esporte

Desde 2016, o sistema de Árbitros Assistentes de Vídeo, conhecido como VAR, foi gradualmente aplicado no mundo do futebol com o objetivo de melhorar a precisão e a consistência das decisões de arbitragem. No entanto, sua introdução não aconteceu sem controvérsia. Vários torneios pelo mundo tem sido assolados por problemas – e aparentemente o Campeonato Brasileiro um pouco mais – e não há como escapar do clamor popular em decisões que são consideradas injustas ou, em alguns casos, simplesmente erradas.

Mas enquanto o VAR está assumindo toda a culpa, o problema não é tanto o sistema, ou até mesmo o modo como é aplicado, mas sim as regras do jogo em si – e a maneira como essas regras são aplicadas pelos tomadores de decisão.

Como muitos torcedores perceberam, a maioria das decisões no futebol não são rígidas. São pareceres subjetivos tomadas em tempo real por um árbitro humano. Adicionando câmeras, replays em câmera lenta e uma leitura literal das regras, o VAR está expondo os problemas das próprias normas que regulam o futebol, e a maneira como nenhuma regra pode explicar todas as eventualidades no campo de jogo. Ao melhorar a “precisão” e a “consistência” da tomada de decisões, o VAR está transformando o que antes era uma decisão fluida, em estilo analógico, em uma questão robótica estritamente digital de sim ou não, dentro ou fora.

Decisões no futebol simplesmente não são claras. Pegue um lance de bola na mão, por exemplo. De acordo com as leis do jogo, deve ser marcado pênalti quando a bola bate na mão do jogador defensor dentro da área. E, no entanto, o que o VAR nos mostrou é que é muito difícil determinar o que queremos dizer com uma ação deliberada. Se um jogador está disputando uma jogada, ele está, por definição, deliberadamente tentando ganhar a bola de volta. Assim, qualquer lance onde um jogador de linha toca com a mão na bola (acidental ou não) é deliberado no sentido mais amplo da palavra – mesmo que a intenção não seja cometer uma falta.

Esta área cinzenta nas regras foi exacerbada pela introdução do VAR, que serviu para chamar a atenção para “erros” no campo de jogo, e desnudou nuances do processo de tomada de decisão. Uma bola de mão foi cometida ou não. Com o VAR, não pode haver intermediários.

Não há espaço para erros

A controvérsia sobre o VAR revela uma questão que atinge o cerne dos debates em torno de robôs e ética robótica. Ao codificar uma “decisão” ética em uma máquina, não pode haver nuances nem possibilidades de errar. Dando um exemplo bem louco, pense em robôs assassinos.

Se nós mandássemos uma série de robôs para a batalha, precisaríamos programá-los com uma série de protocolos para definir quem ele pode ou não matar. Enquanto guerras podem ter sido travadas entre dois (ou mais) lados claramente marcados, não é mais tão fácil distinguir entre amigo e inimigo. Os combatentes não usam mais uniformes diferenciando-os e, mais frequentemente, nossos adversários estão entre nós. Portanto, torna-se difícil, senão impossível, programar um “robô assassino” para tomar essa decisão se baseado apenas nos uniformes.

Essas questões tornam-se ainda mais espinhosas quando pensamos em civis e direitos humanos. Em que ponto um civil se torna um combatente? Em que ponto eles se tornam um alvo legítimo?

Enquanto muitos apontariam (corretamente) para o fato de que robôs assassinos podem realmente tomar melhores decisões éticas em alguns casos, por não sucumbirem ao estresse, fadiga e desorientação, eles ainda têm que tomar uma decisão baseada em um conjunto de códigos predeterminados.


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