Hortas Urbanas: novo conceito de qualidade de vida

Por: Gisele Sartini / Site TV Gazeta

Competindo com milhões de prédios e arranha-céus, as árvores e plantas acabam ficando “esquecidas” em meio ao caos urbano de São Paulo. Para reverter esta situação e tornar a cidade um lugar, além de mais arborizado, mais solidário e humano, alguns grupos iniciaram projetos que trazem para o coração da cidade cinza pequenos oásis verdes, que têm como objetivo unir a comunidade e produzir algo a partir do trabalho em conjunto; as hortas urbanas.

Lots of wooden seedbeds with rich soil on a gravel area outdoors.

Hoje existem mais de 70 hortas comunitárias espalhadas por toda São Paulo. Há cerca de 5 anos surgiram comunidades que compartilhavam conhecimentos sobre a chamada “agricultura urbana”, iniciativa até então pouco explorada no Brasil.

Desde então, vários grupos e redes que reúnem interessados no assunto surgiram, como é o caso dos “Hortelões Urbanos”, que nasceu em 2011 a partir da iniciativa das jornalistas Claudia Visoni e Tatiana Achcar, que na época ministravam aulas de agricultura urbana. Hoje o grupo já conta com mais de 40 mil membros espalhados por todo Brasil.

A partir destas redes, diversas hortas comunitárias foram criadas, como é o caso da “Horta das Corujas”, localizada na Vila Madalena, e que foi a primeira de São Paulo.

No entanto, como a iniciativa ainda é muito recente e pouco conhecida “não existe uma legislação sobre a atividade”, diz Claudia, “as hortas surgem de maneira espontânea em diversos lugares e são feitas por grupos diferentes que possuem suas próprias regras”, conclui.

Mesmo sendo criadas de maneiras diferentes, as hortas comunitárias sempre seguem o princípio de que aquele espaço é um bem público que pode ser visitado e cuidado por qualquer cidadão, o que ajuda a aflorar o sentimento de cidadania.

Segundo a jornalista, esses pequenos espaços verdes são muito mais do que simples hortas. Para ela há ao menos 20 benefícios proporcionados pelas hortas comunitárias.

O plantio de alimentos para o consumo da própria população diminui a pressão sobre os recursos naturais, ajudam na contenção do calor do ambiente e reduz a produção de lixo. Além do mais, as hortas proporcionam lazer gratuito e estimulam uma alimentação saudável, uma vez que os produtos cultivados nelas são 100% orgânicos.

O contato com a natureza também é uma forma de manter a saúde mental dos indivíduos. Há estudos que comprovam que o ato de plantar pode ser terapêutico e a técnica já ganhou até nome: “hortoterapia”. É comprovado que doenças como depressão, ansiedade e autismo têm vários de seus sintomas atenuados com o trabalho direto com a terra, uma vez que a prática tem efeitos calmantes em seus pacientes.

Mesmo trazendo tantos benefícios, a iniciativa não tem apoio da prefeitura ou de qualquer empresa, o que faz com que muitas delas fiquem abandonadas e malcuidadas. Claudia explica que os agentes públicos apenas “permitem que as hortas existam e não as destroem”.

Apesar dos problemas de abandono e falta de voluntários, a jornalista ainda acredita no grande potencial de crescimento das hortas comunitárias em São Paulo, que parecem ser uma forma de mudar o modo em que produzimos e consumimos nossos alimentos e de como enxergamos a natureza.

horta das corujas
Apresentadora Pamela Domingues já visitou a Horta das Corujas com o programa Hoje Tem

No mundo:

Mesmo sendo uma ideia nova aqui no Brasil, a prática das hortas comunitárias já existe em outros países há anos. Nos Estados Unidos, por exemplo, essas plantações nasceram em meados do século XIX, época em que serviam como assistência aos desempregados que viviam em grandes cidades.

Esses espaços também foram muito úteis em períodos de crise econômica e social, como durante as duas Guerras Mundiais e na grande depressão em 1929.

Mais tarde na década de 1960, com o surgimento de movimentos e filosofias que tinham como princípio a paz, a união entre as pessoas e a preservação ambiental, as hortas comunitárias se popularizaram ainda mais ao se tornarem instrumentos de ativistas ambientais.

Outras nações como Holanda, Austrália, Filipinas, Dinamarca, Taiwan, Espanha, Reino Unido, Rússia, Portugal, entre outros, também já aderiram à tendência, que é vista como um modo de construir sociedades mais sustentáveis.

 

Na infância:

Com o crescimento das hortas comunitárias e de pesquisas que comprovam os benefícios do contato com a natureza, diversas escolas e projetos acabaram aderindo à prática para melhorar o desempenho acadêmico das crianças.

Isto é o que defende a educadora e ecóloga Amanda Frug, uma das fundadoras da organização “Humanaterra” que há 10 anos ajuda a divulgar e a aplicar técnicas pedagógicas que colocam as crianças em contato com a natureza.

Hands holding sapling in soil surface with green grass background.

Segundo a educadora, o meio ambiente “ajuda no desenvolvimento motor da criança, que corre, pula e brinca com a terra. Quanto mais diversos forem os ambientes, mais ela poderá explorar seus movimentos, e um quintal farto fará isto de maneira natural”, afirma.

Frug ainda ressalta o valor simbólico que esse contato desde a infância pode trazer para a sociedade e para o crescimento pessoal dos pequenos. “Convivendo com a natureza fica mais fácil a integração da criança com os ciclos naturais, com o ciclo de vida das plantas. Ela ganha noções de ecologia que podem ajudá-la na vida adulta. Isso é importante porque vivemos em uma situação de crise ambiental, em parte porque não sabemos como a natureza funciona”.

Além do mais, o contato com as plantas se torna “uma fonte de experiências e um convite para interdisciplinaridade previsto por lei nos planos de educação ambiental”, afirma a ecóloga, que ainda afirma que crianças que passam por essa interatividade apresentam resultados melhores nas aulas.

No entanto, assim como as hortas comunitárias, a iniciativa ainda é pouco conhecia e divulgada, apresentando certa resistência por parte das escolas, professores e políticos. “O sistema de educação no Brasil é muito ultrapassado, o formato de sala de aula que usamos já tem mais de um século de existência. Precisamos de novas políticas públicas que estimulem a formação de professores que saibam trabalhar com o assunto”, afirma Amanda.


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