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Financiamento coletivo: uma nova saída para o jornalismo independente


Oportunidade. É assim como Candice Pascoal, fundadora da plataforma Kickante, define “crowdfunding”.

O termo, que em português significa financiamento coletivo, foi trazido para o Brasil em 2011 e tem permitido que diversos projetos de jornalismo independente saiam do papel.

A ideia do crowdfunding se resume em arrecadar fundos de maneira coletiva para tornar ideias realidade, ou seja, várias pessoas que acreditam naquele projeto se unem e investem dinheiro do próprio bolso para fazê-lo dar certo, em troca de pequenas recompensas e agradecimentos.

Neste contexto, cada vez mais jornalistas independentes, conhecidos como “freelancers”, veem a possibilidade de realizar matérias com profundidade sobre os mais diversos assuntos, como é o caso de Sabrina Duran.

A jornalista teve seu primeiro contato com o crowdfunding em 2013, quando lançou o projeto “Arquitetura da gentrificação”, feita em parceria com a agência Repórter Brasil. O objetivo era produzir uma série de reportagens, curta-documentários e dossiês denunciando medidas sociais e urbanísticas que tinham como consequência afastar a população de baixa renda de certos locais da cidade.

A princípio, Sabrina projetou um orçamento de 18 mil reais, que no final da campanha não só atingiu a meta, como ultrapassou este valor e arrecadou 11% a mais. Com este dinheiro foi possível financiar uma série de 14 reportagens, contendo vídeos, fotos e relatos.

Com a ferramenta do financiamento coletivo nasce um terreno fértil para o jornalismo independente, livre de empecilhos institucionais, pelos quais muitos veículos tradicionais passam, permitindo maior contato com público leitor. Foi pensando desta maneira que a Agência Pública montou e implementou seus projetos de crowdfunding.

Localizada na casa número 2 de uma charmosa vila inspirada na arquitetura italiana do século XIX, a Pública é um portal de notícias completamente independente que se mantém por meio de financiamento coletivo, doações e apoio de instituições e ONGs mundiais, como a Fundação Ford e a Oak. O foco das matérias são em sua maioria causas sociais, ambientais, direitos humanos e política.

Pautada nestes valores, a Pública já lançou duas grandes campanhas de financiamento coletivo em 2013 e 2015, nas quais conseguiu arrecadar entre 50 e 70 mil reais, superando a meta inicial de ambas. Esses projetos conseguiram bancar a produção de mais de 20 reportagens investigativas, cada uma orçada no valor de 5 mil reais.

Para não perder o espírito de coletividade criado durante a campanha, a agência fez grupos de discussão com seus apoiadores, na redação e através de redes sociais, onde as pessoas tinham total liberdade de opinarem sobre os temas que desejavam ler, como eles poderiam ser abordados, além de ajudarem os jornalistas passando contato de possíveis fontes para as matérias, como conta Marina Dias, coordenadora de comunicação da Pública. “O crowdfunding financia o projeto ‘reportagem pública’, mas o central é que o doador possa sempre escolher as pautas”, afirma. “A gente queria abrir a redação, era uma demanda, as pessoas queriam conhecer a redação. Se estávamos pedindo para as pessoas financiarem, este contato era importante”, conclui.

Realmente, se envolver no projeto, divulgá-lo, estar em contato com o público é a etapa mais importante em qualquer arrecadação. “Quando uma pessoa lança uma campanha de crowdfunding ela basicamente tem que fazer sua divulgação nas redes sociais, isso multiplica o efeito”, explica Candice Pascoal, CEO de uma das maiores plataformas de financiamento coletivo do Brasil, a Kickante.

“O ponto principal é a divulgação, persistência, distribuição e repetição. Este é um mix importante”, acrescenta. A empresária ainda explica que, segundo a experiência da própria empresa, cada pessoa precisa ser contatada pelo menos sete vezes para então tomar a iniciativa e agir. Por este motivo a própria Kickante oferece apoio de divulgação das campanhas lançadas na plataforma e também ensina seus clientes a usarem as ferramentas necessárias. “Pessoas que lançam campanhas na Kickante não saem só com fundos arrecadados, mas com conhecimentos em marketing digital”, completa.

A jornalista Sabrina Duran conta que esta foi a parte mais cansativa de todo processo. “No começo a gente fazia posts diários no facebook, mandava notícias e boletins para ir atualizando as pessoas sobre o projeto. Fizemos churrasco, cinema na rua, debates na rua, em universidades, pedimos dinheiro para amigos”, diz.

No fim da campanha seu projeto teve mais de 300 apoiadores, que mantiveram contato com a jornalista até o fim das reportagens. “Essa relação que a gente procurou estabelecer com o leitor foi uma das grandes riquezas do processo, até porque o repórter nunca faz a matéria sozinho, ele precisa entender o cenário. A montagem da matéria só é possível por causa desta relação”.

Outra questão que o crowdfunding oferece para o jornalismo independente é a liberdade editorial que muitas vezes não se vê em veículos tradicionais como conta Sabrina. “Uma reportagem não precisa ser um texto quadrado sobre um tema. Ela pode ser um texto que se mescla com foto, com áudio, com vídeo, que contempla um debate público, uma exibição pública de um filme, tudo isso fazendo parte de uma mesma discussão jornalística. Então acho que nesses dois aspectos de independência e criatividade editorial é muito bom”.

O crowdfunding é um conceito relativamente recente no Brasil, a primeira plataforma deste tipo nasceu em 2011 com a Catarse, que hoje é uma das maiores do ramo.

O modelo foi trazido dos EUA, onde o conceito de financiamento coletivo já existia antes mesmo da internet. A estátua da liberdade, por exemplo, foi construída a partir deste modelo de doações em 1845. Na década de 1990, a ideia foi adaptada para o meio digital e desde então vem se popularizando.

“O que vemos em produtos ou serviços online, o Brasil está, digamos, cinco passos atrás do similar em mercado dos EUA, mas não vejo isso como um problema, vejo isso como uma coisa óbvia de desenvolvimento mercadológico. Os Estados Unidos já tem crowdfunding ao dobro de tempo que a gente tem no Brasil”, comenta Candice Pascoal.

Porém, a co-fundadora da Kickante vê um cenário positivo para o mercado do financiamento coletivo no Brasil. “O brasileiro é o um dos povos que mais doa. Eu trabalho com captação de fundos há muito tempo, o brasileiro doa mais de 5 bilhões de dólares ao ano, de maneiras diferentes”, conta.

As projeções também são boas para o mercado, segundo dados publicados no Crowd Expert, site especializado em dados sobre financiamento coletivo, o ramo arrecadou mais de 34 bilhões de dólares no mundo inteiro em 2015, e este número deve chegar a 90 bilhões em 2025, sendo que o Brasil deve corresponder a 10% de todo este valor, segundo a Kickante.

Desde 2011 mais de 80 plataformas do ramo já existiram no país, mas apenas 40 delas se encontram ativas atualmente. Podemos destacar entre as mais populares a Kickante, Catarse, a Benfeitoria, Queremos!, Juntos.Com.Vc e Bicharia, sendo que essas duas últimas são voltadas apenas para causas sociais e dos animais.

Pesquisas que traçam o perfil das pessoas que se interessam por crowdfunding ainda são escassas no país, o estudo mais recente e embasado porém, foi criado pela Catarse em parceria com a empresa de análise de métricas Chorus, que apurou mais de 3 mil enquetes entre os meses de agosto e setembro de 2013.

Esta pesquisa apontou que 63% das campanhas são provenientes do Sudeste, 20% do sul, 9% do Nordeste, 7% Centro Oeste e 1% Norte, sendo que 56% das pessoas tinham entre 25 e 40 anos e possuíam ensino superior completo (39%).

A maioria das pessoas que se envolvem de alguma forma com o financiamento coletivo são da área de comunicação, jornalismo, empreendedorismo e tecnologia, todos empatados, cada um representando 10% dos entrevistados.

Os sites de financiamento coletivo no Brasil oferecem dois tipos de arrecadação: a flexível, na qual o anunciante leva o dinheiro da campanha independentemente se sua meta foi atingida ou não, e o modelo “tudo ou nada”, que é o mais popular, no qual o projeto precisa conseguir todo o valor pedido.

Mesmo sendo um tema popular dentro do crowdfunding, os números apontam que ainda é preciso divulgar a causa do jornalismo independente. Até o dia 19 de junho, havia 57 projetos de jornalismo no site da Kickante, mas apenas três conseguiram completar sua meta no modelo de “tudo ou nada” e  seis por meio do modelo “flexível”. Um número ainda modesto se comparado a lista interminável de centenas de projetos de música, cinema e educação que já foram lançados pelo site.

Segundo a pesquisa realizada pela Catarse, 22% dos projetos são na área de artes, 11% de produção cultural e 9% de comunicação e jornalismo.

Outro levantamento feito pelo site sobre os números de 2016, apontou que projetos de jornalismo levantaram menos de 200 mil reais durante o ano, um dos menores valores, perdendo apenas para o setor de gastronomia. Os mais populares, no entanto, são ideias na área de música, educação e literatura, que arrecadaram mais de um milhão de reais cada.

De fato o financiamento coletivo é uma saída interessante para garantir liberdade de discurso no jornalismo independente, mas ainda há um longo caminho a ser traçado. Para Marina Dias é preciso “existir uma cultura forte de que os leitores financiem o jornal. As pessoas precisam achar que é importante fazer jornalismo independente. Quanto mais leitores financiam, mais independente fica o jornalismo”.

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