Visibilidade Trans: uma celebração de respeito e cidadania

Por: Marcio Salles / Site TV Gazeta

Dia 29 de janeiro é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Trans, data criada em 2004 pelo Ministério da Saúde após a divulgação da campanha “Travesti e Respeito”, em reconhecimento à dignidade dessa população.

Desde então, pouco caminhamos para a inclusão de travestis e transexuais na sociedade. São pessoas que ainda possuem grande dificuldade de acesso à educação, ao trabalho e à saúde, além de sofrerem com a violência e o desrespeito diariamente.

Muitas vezes a falta de compreensão sobre o que é ser trans acaba por rotular em nossa cabeça a imagem de que são pessoas exóticas, quase inumanas, e que possuem algum tipo de doença ou transtorno mental. Mas você vai aprender aqui, neste texto, que nada disso é verdade.

Antes de começarmos, convido você a responder alguns questionamentos bem simples:

1) Você sabe o que significa ser “trans”?
2) Você conhece ou conversa regularmente com uma pessoa “trans”?
3) Alguma pessoa “trans” trabalha na mesma empresa que você?


Afinal, o que é ser “Trans”
?

Dizem comumente que pessoas trans “não aceitam seu sexo” e que nasceram no “corpo errado”. Porém, precisamos nos perguntar sempre: o que é ter o corpo certo?

Todos nascemos com características que não controlamos: a cor do nosso cabelo, da nossa pele e até a nossa estrutura física. Mas estas informações biológicas não nos limitam: nossos gostos, preferências e qualidades são indiferentes ao tom da nossa pele ou ao volume de gordura que acumulamos pelo corpo.

Por isso, antes de falarmos sobre pessoas trans, precisamos aceitar o fato de que o nosso corpo não é um limite para a nossa personalidade, e que o nosso órgão sexual faz parte de uma estrutura física, não psicológica.

Uma pessoa “trans” é, portanto, uma pessoa cuja identidade de gênero é diferente de seu corpo. Isso nada tem a ver com a sexualidade em si: é o que se vê no espelho que não bate com o que está na mente. A transsexualidade, antes de tudo, é um conflito interno. É quando se percebe que não se é aquilo que pensava ser.

Denominação social das pessoas atualmente,
de acordo com sua identidade de gênero e sexualidade.


Inclusão “Trans” na sociedade

“Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho,
as pessoas se libertam em comunhão.”
(Paulo Freire)

Falar sobre inclusão social requer mais do que boas ideias, é necessário mudar a forma como educamos a nós mesmos sobre o assunto.

Um dos principais problemas relatados pelas pessoas trans é, justamente, sobre como são identificadas pela sociedade. Pessoas que se referem a travestis femininas no masculino, por exemplo, é uma das maneiras mais comuns de não respeitar o gênero alheio.

A utilização de banheiros públicos – ou corporativos – é outro grande impasse. Algumas empresas revogam os direitos de pessoas trans de utilizarem os espaços reservados ao gênero com o qual elas se identificam, gerando não apenas o desconforto social, mas também aumentando a possibilidade de sofrerem preconceito e ficarem expostas.

Além da educação, é necessária a regulamentação. O Congresso Nacional teria de aprovar uma legislação que reconhecesse a identidade de gênero como direito fundamental para que mudanças efetivas fossem possíveis.

Uma rara pesquisa da ONG Transgender Europe (TGEU), de 2014, revelou que 226 pessoas trans foram assassinadas por crimes de transfobia nos últimos 12 meses. Só no Brasil, foram 113 homicídios.

 

Mercado de trabalho pouco inclusivo

Existem diversas pessoas trans com alto grau de escolaridade, mas ainda há grande parcela desta população que possui baixa instrução escolar, seja por terem sido expulsas de casa, por não terem o apoio de suas famílias, ou mesmo terem sofrido bullying ao ponto de desistirem.

De acordo com Cris Stefanny, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra), 90% das travestis e transexuais se veem obrigadas a entrar na prostituição para se sustentar. Mas essa estimativa é aproximada, uma vez que não há estatísticas sobre transexuais e travestis no censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2013 duas paulistas e um mineiro criaram o site “TransEmpregos”. Os três possuem profissões distintas, mas uma característica em comum: são transgêneros. O site, que possui como objetivo aproximar pessoas trans de empresas, nasceu após seus criadores sofrerem preconceito e o desemprego.

Mas não basta apenas contratar: é preciso estimular o respeito à diversidade no ambiente profissional. Para se ter uma ideia, há pessoas que costumam ser barradas de realizar entrevistas, ou sofrem com o constrangimento de não ter o nome social aceito após a contratação, apesar de uma portaria do Ministério da Educação (nº 1.612 de 2011) assegurar a transexuais e travestis o direito a serem tratadas por seu nome social.

 

O futuro e a visibilidade

O Ministério da Saúde lançou no dia 27 de janeiro, em Brasília, a campanha “Cuidar bem da saúde de cada um. Faz bem para todos. Faz bem para o Brasil”, com foco na saúde integral, atendimento humanizado e respeito para as travestis, mulheres e homens trans. O objetivo é informar e conscientizar toda a sociedade, bem como profissionais de saúde, trabalhadores e gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre garantias ao atendimento considerando as especificidades de saúde dessa população.

A campanha foi desenvolvida em parceria com o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Serão distribuídas 200 mil cartilhas e 100 mil cartazes para unidades de saúde, secretarias estaduais, conselhos de saúde, Comitês de Saúde LGBT e para os serviços de assistência social e direitos humanos do estado.

Também serão veiculadas nas redes sociais mensagens e vídeos de sensibilização e informações sobre as necessidades de saúde e os direitos das travestis, das mulheres transexuais e dos homens trans.

O livro “Transexualidade e Travestilidade na Saúde”, que apresenta uma coletânea de artigos, foi lançado recentemente com foco no desafio da promoção da equidade em saúde para a população de travestis e transexuais a partir do olhar de movimentos sociais, da academia, do serviço e da gestão. A publicação está disponível gratuitamente para download.

Acima de tudo isso, entretanto, devemos sempre manter em mente que acolhimento é cidadania, e que incluir homens e mulheres trans socialmente já será um passo importante para todos nós.

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