Memória Gazeta

22 Novembro 2011

Antes da TV Gazeta

Posted in O Começo

"Eu, Cásper Líbero, quero e disponho que todos os meus bens remanescentes sejam reunidos e aplicados como patrimônio da Fundação que hora crio e instituo, aparelhada dos inventos e aperfeiçoamentos que o progresso for engendrando, fidelíssimo à elevada finalidade da Fundação." – este trecho do testamento do jornalista Cásper Líbero manifestada algumas de suas últimas vontades. O testamento é datado de 1943, mesmo ano em que faleceu.

Cásper era um homem de visão. Quando se referiu no testamento sobre os “inventos e aperfeiçoamentos que o progresso foi engendrando” já falava de televisão. Mas foi mais longe, pensando no que poderia ser criado futuramente. Mas já era sua última vontade a criação de uma TV.

Não se sabe a data, mas o jornalista descobriu o novo meio entre 1936 e 1939, ao ver imagens da pioneira BBC de Londres. Voltando da Inglaterra escreveu para o Ministério de Viações e Obras Públicas (o correspondente ao das Comunicações) a vontade de possuir um canal de TV. O pedido foi feito, em carta de próprio punho, mas se arrastou por anos. Por quê? A resposta é simples. Naquela época, as comunicações no Brasil se limitavam à mídia imprensa – jornais e revistas – e ao rádio, que vivia sua Era de Ouro. Não valia naquele momento apostar em uma nova mídia.

Em 2 de junho de 1939, no Rio de Janeiro, a televisão foi demonstrada aos cariocas na Feira de Amostras. Pela primeira vez no Brasil o grande público soube da existência do novo meio. Mas Cásper já sabia.

Uma cópia daquela carta ficou com a direção de “A Gazeta”, enquanto tramitava lentamente o pedido na esfera governamental.

Ainda em 1939 começou a II Guerra Mundial. Foi um passo atrás na história da televisão em todo planeta. Enquanto na Alemanha a televisão evoluía com a propaganda nazista, em outros países suas transmissões foram interrompidas. Inclusive na BBC, que Cásper viu. Foi um período difícil que só terminou em 1945. Dois anos antes, o jornalista foi vítima de um acidente aéreo. Seu bens foram transformados na Fundação Cásper Líbero em 1944.

Seu último sonho persistiu através do pedido e da cópia da carta. E a idéia de implantar TV no Brasil ganhou maior força com o apoio de Assis Chateaubriand, que desconhecia a idéia de Cásper Líbero. O jornalista paraibano conheceu TV nos Estados Unidos em 1948 ao visitar a RCA, sendo recebido por David Sarnoff. Ele ficou fascinado com a TV. E resolveu comprar os equipamentos para montar não uma, mas duas emissoras de televisão.

Chatô e Cásper Líbero eram colegas e seus veículos concorrentes. Junto com as Folhas e O Estado de São Paulo, os jornais de “A Gazeta” e os Diários Associados eram os principais nas bancas paulistanas. Mas o que permitia que Chateaubriand desse um passo a frente da Fundação Cásper Líbero, no projeto da implantação da TV, era a experiência que tinha com a mídia eletrônica, através de uma enorme cadeia de rádios. Chatô reuniu esforços para rivalizar mais com empresários dos meios eletrônicos, como Paulo Machado de Carvalho, do que com os de mídia impressa. Sabia que a televisão seria uma extensão do rádio e que estes melhor se adaptariam ao novo meio.

A Fundação Cásper Líbero designou Sérgio Pimentel Mendes para cuidar do projeto da televisão. Assim como Chateaubriand fez com os engenheiros Jorge Edo e Mário Alderigh, a Fundação mandou ao exterior Sérgio Pimentel para estudar televisão. Ele também era engenheiro e ainda mexia com publicidade. Foram vários anos pela implantação da TV. Antes e depois de ganharem a primeira concessão.

Sobre esta, aliás, o pedido entrou junto do de Chateaubriand e o da TV Paulista, liderada pelo deputado João Ortiz Monteiro. Por força política, Chateaubriand recebeu e logo conseguiu implantar a televisão antes dos demais. Foi assim que em 18 de setembro de 1950 nasceu a primeira TV da América Latina: a PRF-3 TV Tupi-Difusora, canal 3 de São Paulo.

A outorga dos outros canais veio posteriormente. O que se deu apenas em 15 de janeiro de 1952, por decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas. A demora foi também por questões técnicas. Queriam incluir mais um canal, além dos 6 permitidos em freqüência VHS na capital paulista. A TV Tupi teria que se deslocar para o canal 4 para não haver interferência com o canal 2, outorgado à Fundação Cásper Líbero. E o canal 5, mesmo perto do 4, tinha diferença na freqüência, o que não o afetaria. Este foi concedido à TV Paulista.

Em 14 de março foi inaugurada a TV Paulista. O mesmo não aconteceu com a TV Gazeta. Isso porque os equipamentos ainda não tinham sido comprados, Sérgio Pimentel estava no exterior continuando os estudos e a Fundação Cásper Líbero vivia um momento delicado, tendo a construção do Edifício Gazeta (Avenida Paulista, 900) como o principal projeto.

O país passava por um momento difícil também. As eleições diretas foram vetadas, em 1964 um golpe militar colocou o exército no poder. Os meios de comunicação passaram a ser vigiados pela censura. E no meio disso tudo, dificuldades e problemas internos afetaram ainda mais a Fundação Cásper Líbero. E por conseqüência, a criação da TV Gazeta.

Antes disso ainda, a TV Gazeta perdeu a concessão do canal 2 em golpe político em 1959. Não se sabe se foi por articulações de outros grupos, mas a concessão logo foi passada para as mãos de Chateaubriand, que um ano depois inaugurou a TV Cultura. E foi dada a concessão do canal 11 para a TV Gazeta. Em 1961, o último ato do Governo de Juscelino Kubitschek foi tirar da Fundação o canal e passar à TV Continental do Rio de Janeiro. Um dia depois, com a posse de Jânio Quadros e por pressão da Fundação, a concessão voltou às mãos de quem era de direito.

Em 1968 a crise da Fundação Cásper Líbero veio a público. E com o apoio da Folha de São Paulo, em convênio firmado por dez anos, a Fundação se reergueu aos poucos. Octavio Frias de Oliveira tornou-se o presidente do Conselho Diretor da Fundação Cásper Líbero.

Três eram os homens que dirigiram a TV Gazeta nesta fase embrionária. Ainda Sérgio Pimentel, posteriormente Alberto Saad e a partir de 1968, e Marco Aurélio Rodrigues da Costa – vindo da Folha de São Paulo.

Em 23 de junho de 1969, faltando poucas horas para perderem a concessão do canal 11, a TV Gazeta entrou experimentalmente no ar, com a música “Sá Marina”.

O programa “Mingau Quente” foi o primeiro, exibido diversas vezes até a estréia oficial, em 25 de janeiro de 1970.

Slides, com imagens de São Paulo, pediam ao telespectador para escreverem relatando a qualidade do sinal do canal 11.

A primeira a querer TV no Brasil, foi a última se instalar. Todos os demais canais foram ao ar antes, entre 1950 e 1967: Cultura (2), Tupi (4), Paulista (5), Record (7), Excelsior (9) e Bandeirantes (13).

No meio televisivo eram um momento de mudanças. O videoteipe já era utilizado regularmente, as primeiras redes estavam em processo de formação. A Globo comprou a TV Paulista e começou a implantação da sua rede. A principal, Tupi, estava em crise – principalmente após a morte de Chatô, em 1968. Sem condições, repassou o canal 2 para a o Governo Estadual, que inaugurou a Fundação Padre Anchieta e posteriormente a nova TV Cultura, em 1969, agora educativa. Record e Excelsior começaram com a Tupi uma briga pela audiência, envolvendo novelas diárias, festivais de música e grandiosos programas de auditório.

Para finalizar, 1969 foi o ano em que tudo mudou. Uma série de incêndios vitimou a televisão em São Paulo. Três na Record, um na TV Globo Paulista, outro na Bandeirantes. Um ano depois foi a vez da Excelsior. Indícios davam conotação criminosa a eles. Havia a alegação de que por trás estava a OBAN (Operação Bandeirantes), ligada aos militares.

Os incêndios se transformaram no divisor de águas na história da TV brasileira. Por conta dos prejuízos com o fogo, muito se perdeu das fitas e filmes das emissoras – verdadeira memória televisiva -, além da questão financeira: Excelsior e Record nunca mais chegaram ao patamar que estavam. Era a hora de recomeçar. E agora, recomeçar com a mais nova das emissoras: a TV Gazeta.

 

 

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