Com o abrandamento da censura, o jornalismo
volta a conscientizar
Com
o abrandamento da censura militar no início dos anos
80, os programas jornalísticos ganharam novo fôlego
e retomaram a tentativa de formação de uma
consciência coletiva nacional. Os telejornais deixaram
de ser somente informativos e passaram a discutir idéias
e opiniões. Os debates, em programas juvenis e de
entrevistas, passaram a focar o esclarecimento.
A
partir do surgimento do programa TV Mulher, da Rede
Globo, os programas femininos adquiriram diferentes formatos
e foram muito veiculados em todas as emissoras, não
se restringindo mais aos problemas domésticos e incluindo
discussões como os direitos da mulher, o posicionamento
feminino na sociedade e a mulher como profissional.
Importantes programas de entrevistas ou debates surgiram
durante a década, expressando temas que traduziam
o pensamento intelectual brasileiro.
Além das grandes coberturas
esportivas nacionais e internacionais, o jornalismo também
foi responsável por transmissões de grande
repercussão social no país, como as campanhas
das Diretas Já, da Anistia Política e da Constituinte.
Os noticiários passaram a fazer denúncias
de todo tipo e o jornalismo desencadeou um processo de formação
de opinião que culminou, no final da década,
com a eleição de um político desconhecido
para a presidência do país (o alagoano Fernando
Collor de Melo), eleito também pela força
de manipulação da mais poderosa emissora de
televisão do país, a Rede Globo.
Com o retorno do poder civil, o humor voltou a criticar
a política e a economia brasileira. Assim, após
tanto tempo em silêncio, o humorismo pôde utilizar
a sátira político-social com força
total. Nesse período, a telenovela passou a ter diversos
diretores: geral, de gravação de núcleos,
de elenco e de imagem. Em relação ao texto,
além de adquirir uma forma de expressão bastante
livre, exibindo qualquer tipo de assunto, contou, ainda,
com a introdução do autor-colaborador que,
dentro da idéia original do autor principal, criava
novas tramas.
No início da década de 80, a Bandeirantes
já contava com três novelas diárias
em sua programação, à semelhança
de sua principal concorrente da época, a Globo, com
a qual pretendia competir em pé de igualdade, inclusive
do ponto de vista da produção. A transmissão
esportiva consagrou-se como carro-chefe da emissora a partir
de 1984, com a estréia do Show de Esporte,
a maior concentração de programas esportivos
da televisão brasileira, ancorado pelo narrador esportivo
Luciano do Valle.
As emissoras educativas aumentaram suas atrações
de entretenimento cultural e dinamizaram o jornalismo, popularizando
mais suas atrações e diminuindo a emissão
de aulas, para atingir um público maior.
Outra novidade foi o surgimento das produtoras independentes
de vídeo que realizaram reportagens, shows e seriados.
Algumas venderam seus produtos para emissoras comerciais.
Outras alugaram horários em determinados canais e
apresentaram o que produziam, inclusive nas TVs a cabo que
começaram a se espalhar pelo país.
A
TV Tupi, apesar de pioneira na chegada da televisão,
passou por situações difíceis, inclusive
por greves, até que o empresário Sílvio
Santos a comprou em 1981. Sílvio Santos, conduzindo
seu programa de auditório aos domingos, abriu uma
financiadora, lojas de departamento e passou a vender o
conhecido carnê do Baú da Felicidade. Ele não
se preocupava com o Ibope e queria que seu programa fosse
diferente dos outros. Com o desmoronamento da TV Tupi e
de outras emissoras de televisão que integravam a
Rede Associada, surgiu uma grande oportunidade de se criarem
novas alternativas para a televisão brasileira. O
governo federal anunciou, no dia 23 de julho de 1980, a
abertura de uma concorrência para a exploração
de duas novas redes de TV. Diversos grupos empresariais,
a maioria voltada ao setor de comunicações,
demonstraram interesse pelas novas redes. A briga pelas
concessões estendeu-se por mais de um ano, quando,
finalmente, o governo escolheu os novos concessionários:
a rede "A" foi confiada a Sílvio Santos
e a rede "B", a Adolpho Bloch.
Os contratos definitivos foram assinados no dia 19 de agosto
de 1981. Sílvio Santos inaugurou seu Sistema Brasileiro
de Televisão (SBT) no mesmo dia, transmitindo, ao
vivo, este momento histórico da televisão
brasileira. Já com Adolpho Bloch, a trajetória
foi diferente. Bloch investiu maciçamente em qualidade,
inaugurando a Rede Manchete quase dois anos depois da assinatura
do contrato. Sem aproveitar praticamente nada do que herdou
das antigas concessões, revolucionou a televisão
brasileira com uma programação voltada para
as classes mais elevadas, com filmes e séries premiadas.
Com a extinção da TV Tupi, em 1980, a Record
passou a liderar juntamente com a TVS (TV Studios) do Rio
de Janeiro, a REI (Rede de Emissoras Independentes), composta
em sua maioria por emissoras que pertenciam à Tupi,
inclusive o canal 4 de São Paulo. Apesar de sua grande
queda no ranking das emissoras, devido à chegada
do SBT e ao crescimento da Bandeirantes, a Record ainda
investia e visava à cobertura total do estado de
São Paulo.
Nesse período, a Record tinha em sua grade o Perdidos
na Noite, com Fausto Silva e Dercy aos Domingos,
com Dercy Gonçalves. O jornalismo foi reforçado,
com a entrada de Dante Mattiussi na direção
do departamento e, colocando no ar o Jornal da Record,
inicialmente comandado por Paulo Markun e Silvia Poppovic.
Em 1988, a terceira geração da família
de Paulo Machado de Carvalho assumiu o controle da emissora
e, juntamente com Sílvio Santos, decidiu colocá-la
à venda. Em 1989, foi concretizada a venda da emissora
para o líder da Igreja Universal do Reino de Deus,
o bispo Edir Macedo. Nessa nova gestão, a Record
ampliou seu raio de cobertura para todo o Brasil, recuperando
de vez a sua tradicional posição no ranking
da audiência.
Em
janeiro de 1985, a Manchete lançou a modelo Xuxa
na televisão, apresentando o Clube da Criança.
A primeira novela produzida pela emissora, Antônio
Maria foi lançada em agosto do mesmo ano, junto
com a série Tamanho Família. Nenhum
dos dois emplacou. Sem conquistar boas audiências,
Adolpho Bloch aprovou o lançamento de alguns programas
humorísticos e populares, apresentados por Pepita
Rodrigues, Carlos Eduardo Dollabella e Miéle.
Em fevereiro de 1986, a Manchete já amargava um prejuízo
de US$ 80 milhões e uma dívida beirando US$
23 milhões. Sete meses depois, a emissora sofreu
a primeira greve por salários dos funcionários.
Mais uma grande revelação da televisão
brasileira é descoberta na Manchete: a apresentadora
Angélica. Em abril de 1987, a emissora a inclui no
elenco do infantil Nave da Fantasia. Na época
com apenas 13 anos de idade, Angélica foi aos poucos
ganhando fama e mostrando o seu talento, até ocupar
definitivamente a vaga de Xuxa dentro da emissora, apresentando
o Clube da Criança e o programa musical Milk
Shake.